A linha tênue entre o amor e o ódio

 

Foram infinitas as vezes em que ouvi um “eu te amo” tentando massagear meus ouvidos, mas palavras nunca foram suficientes, não quando se trata do amor. Afinal, continuamos nessa busca incansável atrás de um amor perfeito que demonstre carinho cem por cento do tempo, que seja especial, paciente, um pouco carente e totalmente presente. Continuamos caçando um fenômeno livre de defeitos que não reclame, não brigue, não implique e nunca, em hipótese alguma, se torne ausente. Nem nos cinco minutos enquanto vai à padaria comprar um pão. Não pode ser ciumento demais, mas se não sentir ciúme, não gosta de mim. Tem que ser carinhoso, mas olhe lá o limite do carinho, se ultrapassar, vira grude. Ninguém quer um amor grudento, certo? O que buscamos, enfim? O equilíbrio? Descobri com ela que não.

Ela chegou mais cedo do trabalho, disse que tinha voltado agora para passar a noite comigo. Suas amigas estavam em algum bar bebendo e dançando, era sexta feira. Não foi por falta de convite que ela não foi, simplesmente havia escolhido passar a noite na minha casa. Se ela era do tipo grudenta? Longe disso. Dificilmente me cumprimentava com beijos e abraços, detestava dormir de conchinha e não apertava minha mão nem durante a pior cena do filme de terror. Ela não era chegada ao contato corporal, dispensava todas as minhas tentativas de fazer cafuné e a troca de olhares românticos era completamente desnecessária na opinião dela. Se nós podemos falar o que queremos falar por meio de palavras, para quê o esforço em decifrar o olhar? Simplista demais. Calculista demais. Na hora do sexo, a matemática era perfeita. O encaixe era perfeito. E era o encaixe. Não tinha uma preparação, muito menos um pós; coladinhos na cama sem vestes. Era chegar ao quarto, fazer o que tinha de ser feito e levantar para tomar uma ducha. Não que não fosse bom. Aquela garota era impressionantemente espetacular, só não curtia romances e chatices, como ela mesma definia. Agora provavelmente seria ela fria demais, certo? Não sei. Algumas vezes, ela perdia tardes de trabalho para cuidar de mim, bastava que minha temperatura estivesse acima de trinta e sete e meio. Desmarcava compromissos divertidos com as amigas se eu ligasse pedindo para vê-la e, além disso, escrevia coisas realmente lindas sobre mim. Bipolar?! Não, ela era o equilíbrio em um mundo onde não sabemos lidar com coisas equilibradas. Ela era temperatura ambiente, sem a obrigação de me esquentar no frio. Foram infinitas as vezes em que ela disse que me amava, mas, para a minha cabeça tão confusa e desacostumada ao equilíbrio, aquilo não passava de uma tentativa de massagear meus ouvidos. Foram infinitas as vezes em que ela me amou e eu duvidei – além de não enxergar. Quando minha mãe adoeceu e ela não saiu do meu lado nem por um segundo, ainda que não tivesse chorado comigo. Quando coisas do meu trabalho tiravam meu riso e ela contava as piadas mais sem graças do mundo, só porque era engraçado chamá-la de idiota, ainda que ela não mostrasse o motivo de estar fazendo aquilo. Quando eu estava com fome e ela iniciava uma guerra de travesseiros enquanto a pizza não chegava, para distrair meu estômago, ainda que aquilo parecesse só pretexto para não me deixar ficar dengoso enquanto sentia fome, ou raiva, ou tristeza, ou qualquer outro sentimento que ela não gostava de ver em mim. Sempre tinha um jeito único de me tirar do foco. Ou de me fazer voltar ao foco, quando necessário. Ela era uma coleção de detalhes que eu nunca soube ver, ela era as famosas letrinhas pequenas nas entrelinhas que eu nunca soube ler. Ela era a contração dos meus ventrículos fazendo com que meu coração batesse, mas eu precisei de uma aula completa sobre o sistema cardiovascular para aprender isso. Assim também levei muito tempo para entender como ela funcionava e enquanto não aprendia, tentava consertá-la, modificá-la. Queria obrigar ela a me encarar enquanto dizia que me amava, sem entender que seu desvio de olhar representava apenas o medo dela de não encontrar verdade no meu quando eu dissesse que era recíproco. Queria forçar ela a sair com as amigas e ainda assim, chegar disposta a me amar por toda a noite como a mais carinhosa das mulheres, porque eu achava que isso era o tal equilíbrio. Queria fazer com que ela me amasse a minha maneira e nunca fui capaz de enxergar que a sua maneira era muito melhor. As palavras dela nunca me foram suficientes porque eu fui tão surdo a ponto de só ouvir as palavras ditas e ignorar tudo que havia por trás delas. Então naquela sexta feira à noite quando ela chegou mais cedo a minha casa disposta a passar a noite comigo, assistir a algum filme à distancia e comer pizza depois de uma guerra de travesseiro, fazer o melhor sexo, tomar banho e voltar para dormir cada um em um canto da cama, eu a mandei embora. Mandei antes mesmo que ela pudesse entrar, mandei antes mesmo que eu pudesse pensar em desistir. Porque, ainda que eu não acreditasse em seu amor, eu continuava a amar muito aquela imagem que estava parada a minha frente com olhos cheios de água, demonstrando pela primeira vez algum sentimento que eu não fui capaz, mais uma vez, de decifrar. Só fui capaz de pedir para ela sair e não voltar mais; o que já não dava certo entre a gente estava indo longe demais. Ela me encarou como nunca tinha feito, deixou que seu olhar falasse por ela, segurou minha mão com força antes de dar as costas e, depois que o fez, deu a meia volta só para me bater. Maldito contato corporal. Quando eu a fiz parar, ouvi pela primeira vez um “eu te odeio” massagear meus ouvidos, mas ela foi embora antes que eu tivesse tempo de me arrepender. Foram infinitas as vezes em que ela disse que me amava e eu duvidei, mas só quando ela disse que me odiava, eu entendi todo o amor oculto, escondido e dramatizado dentro daquela coleção de detalhes que era o coração dela.

Katherine Albuquerque

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