Hoje lhe entrego a carta de alforria

Se fosse há um tempo atrás, ela nem teria olhado na minha cara, nem sequer mediria esforços para me cumprimentar. Ela sempre foi boa em me ignorar, e suas atitudes me convenciam de que jamais teríamos uma nova chance, quando tantas outras foram em vão. Ela me convencia, mas seus olhos às vezes me faziam duvidar de todo aquele desmerecimento com o qual me tratava. Ela foi importante pra mim, foi o meu primeiro amor, e eu sei que tudo foi recíproco, e é por isso que os seus olhos me intrigavam. Por mais que ela me desse um gelo que mais parecia um iceberg, os seus olhos seriam capazes de derreter e transformar tudo em um grande oceano. Ah se esses olhos estivessem presente no dia em que o Titanic afundou… a história teria um outro rumo. Mas que bom que o momento dela é aqui, marcando a minha vida. O nosso amor deixou muitas marcas, mágoas e lágrimas, mas agora, ao ver você dormindo em meu peito, respirando lentamente, com alma leve, sinto que todo o nosso passado ficou no passado, e que estamos finalmente livres. Sei que o que tivemos hoje, depois de anos, foi uma despedida. Você chegou, despida, me beijando como nunca fizera antes. Fizemos sexo loucamente, porque o amor já não se faz presente entre nós. Nos reencontramos com outros olhos, outros planos e outros sonhos e, na verdade, só queríamos saber como que seria tentar mais uma vez. E foi exatamente como pensei: uma despedida. Hoje me despeço daquela menina que antes chorava, e que hoje se tornou numa mulher que duvido que tenha lágrimas. Não estou dizendo que você se tornou fria, muito pelo contrário, se tornou forte, e eu não sou merecedor de suas lágrimas. Hoje o seu toque não fora carinhoso como antes, e sim curioso. Éramos dois corpos sedentos por um desejo carnal, e ao invés de suspiros apaixonados, o som que se evacuou foram de gemidos em tom maior. O seu grito de orgasmo foi a sua comemoração por finalmente receber a carta de alforria por se libertar do meu coração aprisionador. Você já não é mais escrava do meu amor, e descansa em meu peito enquanto sonha com a sua nova vida. Hoje você me fez entender que o que tivemos não poderá se repetir justamente por não sermos mais os mesmos, e confesso que é bem melhor assim. Hoje me despeço daquele garoto de dezesseis anos e me torno um homem que, cá entre nós, estou gostando de conhecer. Hoje, nesta cama, me despeço daqueles dois adolescentes que trocaram promessas de amor que nunca foram cumpridas, e dou um olá para um homem e uma mulher que irão seguir caminhos distintos, livres do passado e com o coração cheio de esperança para o que está por vir. Foi bom te conhecer anos atrás, mas a partir de hoje eu não te reconheço mais, e isso me faz bem. E daqui a pouco, quando você acordar, não seremos mais os mesmos de antes, e sim dois estranhos que precisavam de um empurrão para trilhar um novo caminho.

Larissa Lisboa.

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