Pensamentos de um dia de chuva

O dia amanheceu chuvoso e ela já sabia o que significava. A cada gota que caía no telhado ela se convencia, minuciosamente, de que tinha que cumprir o planejado. 

Olhou o relógio, eram 07:17 AM, hora de sair de casa. Cada passo dado até o ponto de ônibus ia de acordo com o ritmo que ela desviava os seus pensamentos. Não queria apressar nada.

Pegou o ônibus, avistou uma janela e sentou-se perto dela. A chuva apertava e gotas d’água escorriam como se fizessem uma competição de quem chegava primeiro ao final da janela em que a sua cabeça estava encostada.

Pegou o celular e colocou em modo aleatório. Como de costume, o dia chuvoso acertou em cheio a música que ela queria escutar: “Look After You – The Fray”. Colocou no último volume e se convenceu de que esse momento era necessário: pensar na vida, mais especificamente em um amor que acabou, mas que ela ainda sentia muita falta. Pelo menos era o que ela achava.

Ela vem se esquivando desses pensamentos desde o término, mas acredita que pelo menos um dia chuvoso de cada mês ela deve deixar aflorar toda a dor que tem em seu coração, até mesmo para testar se ainda há algum resquício de sofrimento.

A música segue rolando e ela lembra de todas as promessas que foram feitas, mas que, por algum motivo, nem todas foram cumpridas. Ela se recorda de diálogos promissores e dos que se silenciaram até o dia de hoje. Se lembra dos dias felizes e dos dias escuros que se estabeleceram desde que a tristeza se fez presente. Mas o dia chuvoso de hoje estava diferente. Quem chorava era o céu e não ela. 

Conforme a chuva ia estiando, ela tinha a certeza de que não precisava mais cumprir o ritual mensal. Ela percebeu que a dor estava adormecida e que o motivo pelo o qual tudo acabou era bem plausível. Não dá para continuar quando apenas um está disposto a lutar por dois. Não dá para continuar quando um olhar já não brilha justamente quando o outro precisa de uma luz no fim da escuridão que se estabeleceu.

As gotas foram ficando mais fracas e de alguma forma ela convenceu ao céu de que não há motivos para chorar. Ela respira fundo e anseia por um dia ensolarado. “Não tão rápido assim”, ela imagina ser uma resposta das nuvens, que continuam em lágrimas, mas um pouco mais fracas, quase que parando. Ela apenas concorda com a cabeça, afinal tem mais pessoas refletindo nesse exato momento, pois cada um tem o seu próprio tempo.

A música acaba, depois de ser repetida por inúmeras vezes, e a chuva se vai. O tempo continua nublado, mas no seu céu interior raios de sol começam a se manifestar, tornando presente um novo clima em sua vida.

 

Larissa Lisboa.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s