Café com canela

São nove horas da manhã de um domingo, a hora que eu costumava acordar com um cheirinho de café com canela que vinha da cozinha. Ela costumava acordar cedo para cuidar do jardim e comprar pão que o padeiro vendia em sua bicicleta azul e buzinava ao entrar na rua, alertando-a.

Ela amava flores e plantar era o seu hobby, assim como cozinhar, principalmente no café da manhã. Era simples, mas era tão dela. A manteiga derretida no pão quente, acompanha de uma fatia de queijo minas e o seu café com canela. Esse não podia faltar. Era cheiro de amor. Lavava algumas frutas e cortava na tentativa simples de fazer uma salada acompanhada de creme de leite. “É o café da manha”, ela dizia, “se a gente não começar o dia comendo bem e se sentindo feliz, não vale a pena acordar cedo”.

Depois do café ficávamos na varanda e conversávamos sobre o tudo e o nada. Sobre o presente, o passado e o futuro, mas principalmente o presente. Ela vivia um dia de cada vez e o meu amor por ela aumentava a cada minuto.

O almoço ficava por conta da fome, que aparecia lá para as duas horas da tarde. Macarrão com queijo era o pedido. A tardinha pegávamos o que sobrava do sol no nosso quintal com um copo de chá e biscoitos e a noite, depois do banho das sete, sentávamos no sofá e víamos um bom filme ou até dois, até ela adormecer em meus braços. 

Eu a carregava para a cama como de costume desde o dia do nosso casamento, colocava no lado direito virado para a janela e a abraçava até o dia seguinte, adormecendo em seu perfume e no calor do seu corpo.

Ela não gostava muito da rotina semanal, mas não abria mão do domingo. Do nosso domingo. Era só nosso, mesmo depois da chegada dos filhos e dos netos. E continua sendo o nosso domingo, mesmo sem ela aqui. Nunca deixei de viver em nossa casa, tampouco de fazer alguma tarefa que tinha na nossa rotina.

As flores estão mais bonitas esse mês, e já fazem três anos que ela se foi. Eu sinto falta do seu beijo, do seu abraço e da sua voz. Do seu rabo de cavalo e do óculos rosa que ainda está guardado na cabeceira da cama. Sinto falta das suas risadas quando esquecia o que ia fazer ou falar. Sinto falta de como olhava para a vida.

Mas sabe o que eu sinto mais falta? Do cheiro de café com canela que invadia a casa às nove da manhã e me enchia de amor e tinha gosto de carinho.

Larissa Lisboa.

2 comentários em “Café com canela

  1. É verdade… Os cheiros evocam memórias e transportam-nos… Sou muito ligada a cheiros, tenho uma memória olfactiva poderosa! O da canela também é muito especial para mim! Obrigada por este texto! Beijinho

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