Arte singular

Nos palcos ela já foi dona de uma empresa, repórter, uma filha subestimada e gerente de um bordel. Já encenou um casal romântico e até arriscou um musical. Foram tantos personagens em poucas esquetes que ela já tirava de letra, até que chegou a hora de encarar o que talvez fosse o seu grande papel.

O palco estava lá, como sempre. A plateia presente. Os holofotes brilhando mais do que o normal. A peça dessa vez era bem diferente.

Por mais que ela estivesse acostumada de que o cenário sempre muda, esse ela nunca tinha encarado de fato, por medo, por receio, por cair na rotina de outros papéis. Ela sabia que dessa vez a plateia a observaria diferente das outras vezes e que, certamente, os aplausos seriam poucos. Reconhecimento então era algo que não existia no roteiro, que na verdade nem tinha. Mesmo assim ela aceitou o papel e se preparou para a sua grande estreia.

Dessa vez ela não tinha sinopse e nem roteiro. No máximo uma ideia do que poderia acontecer. E então juntou todas as forças que trazia em sua bagagem e se preparou para entrar no palco. Se arrumou, se maquiou e foi no improviso. Não sabia muito bem o que falar, mas se arriscou.

As cortinas se abriram, ela caminhou pelo palco. A peça se chamava “realidade” e o palco nada mais era do que a sua própria vida. O personagem era o seu próprio reflexo no espelho. “Aceita-te, menina!”, exclamou em tom baixo, no primeiro momento. “Eu quero ouvir a tua voz!”, disse no segundo ato. Desabou em lágrimas.

Em poucos minutos encarou os holofotes mais uma vez. “Quem eu sou?”, gritou em prantos, se questionando e chamando a atenção até de quem não estava na plateia.

Caminhou em círculos pelo palco e, numa bela surpresa, se apresentou. Disse o seu nome e a sua idade, dando início ao seu enredo. Pediu desculpas pelo transtorno inicial, embora fizesse parte do personagem, esse que ela estava descobrindo, aos poucos, a sua essência.

“Se a vida é uma arte” -pensou ela, “devo-me assumir como personagem principal e escrever a minha própria história”, concluiu.

Levantou a cabeça, se reconstruiu. Não queria aplausos. Só queria que as cortinas não se fechassem e que a sua arte singular fosse a sua inspiração para seguir em frente.

Larissa Lisboa.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s